A Folha de SP se rendeu, nós não

24 de fevereiro de 2017, 16:10

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A Folha de SP se rendeu, nós não

Foi-se o tempo em que o jornalismo brasileiro era marcado pela contradição corajosa no posicionamento e pela dedicação honesta ao debate de ideias. Não é de hoje que a Folha de SP cumpre um desserviço ideologizado à sociedade, sobretudo quando o assunto é a educação. Afinal, desde quando tornou-se um erro investir no ensino público?

Uma das falhas mais graves e evidentes dentre os mais de 20 anos de governo tucano em SP é o descaso programado com a educação pública. Nossa geração cresceu ouvindo dos pais que na época deles a escola pública era quase nivelada pela excelência. A tristeza é ver hoje estas instituições sucateadas, com professores contratados sob regimes precários e salas superlotadas. De geração para geração, este é um fato escancarado. Não por menos, foi massivo o apoio às mais de 700 escolas ocupadas por estudantes secundaristas no estado contra a Reorganização Escolar de Alckmin.

Pois bem, sabe-se que há algum tempo a crise econômica tomou as universidades. Depois de cortes federais escandalosos na verba da educação, a narrativa do “irremediável” ganhou força – pedir mais investimento para a educação, apesar de óbvio, parece hoje uma grave infração à manutenção da ordem, com direito à gás lacrimogêneo e bala de borracha.

Acontece que a USP, UNESP e UNICAMP são universidades geridas pelo governo do principal estado do país. A verba vem do repasse de determinada porcentagem da arrecadação líquida do ICMS (USP, 5%; Unicamp e Unesp, 2,2% e 2,3%, respectivamente). As universidades paulistas deveriam, portanto, ter uma certa estabilidade.

Impressiona no editorial da Folha de SP o desprezo por uma lei que garante a indiscutível necessidade de estabilidade financeira das universidades paulistas, dentre elas, a principal universidade da América Latina. Como se o investimento público em educação fosse um privilégio e não um dever – negligenciado – do Estado para com todo o sistema educacional. A lógica é: se a USP revela a crise da educação no país, acabe-se com a USP também. A contradição é que a própria Folha já relatou que o repasse estadual às universidades paulistas não é feito por completo há alguns anos, logo, nem considerando-se como “privilégio”, essa estabilidade é garantida.

O editorial da Folha defende a proposta do reitor Marco Antônio Zago de amputar os gastos da USP, considerando que se gasta 105% do orçamento com folha de pagamento. Mas afinal, se a USP não recebe 5% do ICMS líquido há tempo, de qual montante estamos falando? A proposta, nomeada “Parâmetros de Sustentabilidade da Universidade de São Paulo”, diz que se o gasto com a folha de pagamento estiver acima de 80% do Repasse do Tesouro do Estado, então estão proibidos os reajustes de salários, além disso, também está proibida a contratação de novos funcionários, independentemente de quaisquer outros critérios ou necessidades da universidade. Além disso, o pacote de Zago prevê que 40% do quadro de servidores devem ser de docentes, no entanto, também prevê o congelamento das contratações, ou seja, para que essa proporção fosse ajustada seria preciso demitir mais 5.000 funcionários – que hoje fazem funcionar laboratórios, museus, bibliotecas etc. Como é possível preservar a USP aplicando um projeto que desmonta seus pilares fundamentais de funcionamento? Aprovada “PEC do Fim da USP”, veremos o fim da Universidade de São Paulo como um polo de excelência e referência internacional. Quem sabe, seremos nós a contar pros nossos filhos como era a época em que a universidade pública fora de qualidade.

A Folha de SP se rende ao discurso raso do governo do estado porque depende disso. Quem vive o dia a dia da USP sabe a dificuldade que é a permanência em tempos em que os palácios travam um confronto ideológico contra a educação pública. Faltam bolsas, creches são fechadas, moradias estão precarizadas. É inacreditável que a grande mídia se preste a discursar contra estudantes e professores, num cenário em que a educação pede socorro ao mesmo tempo em que os poderosos se afundam na lama da corrupção. Será que não se lembram do escândalo de corrupção envolvendo contratos da Fundação da USP, cujo presidente do conselho curador, sujeito que aprovou tais contratos, era o próprio reitor Marco Antônio Zago? A cobertura deste caso falhou coincidentemente? De que lado está a Folha? Será que a solução, sinceramente, passa por precarizar a Universidade de São Paulo?

Por fim, é com a consciência limpa e a alma cheia de esperança na luta que os estudantes, funcionários e professores da USP estão articulados, junto com a UNESP e a UNICAMP. São tempos difíceis, mas faremos dos nossos pés coração para defender a maior universidade do Brasil. Corajosos são os nossos que não se rendem – como a querida professora Adriana Tufaile – e que se posicionam contra a vontade da reitoria, mesmo que isto lhes custe o desgaste nas relações internas. Não seremos lembrados como aqueles que apoiaram o fim da universidade pública no Brasil. Não deixaremos a USP acabar!

 

Gestão Travessia 2017 – DCE Livre da USP “Alexandre Vannucchi Leme”

 

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