AO EDITORIAL “COERÇÃO NA USP” DA FOLHA DE S. PAULO

04 de julho de 2016, 19:53

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Em Maio, no editorial intitulado “Greve na Torre de Marfim”, a Folha não escrevia uma única linha sobre a greve dos estudantes, dedicava-se a criticar as justas mobilizações e reivindicações dos trabalhadores da USP pelo reajuste salarial e contra o desmonte da universidade (na ocasião publicamos uma resposta). Agora, nossa greve é impossível de disfarçar, está presente em mais de 80% dos cursos da USP, tem importante expressão e força na conjuntura do estado de São Paulo, por isso, no dia 26 de Junho a Folha de S. Paulo publicou um editorial sobre os estudantes em greve na FFLCH intitulado “Coerção na USP”.

O editorial é inaceitável! Uma violência à memória dos lutadores contra a ditadura e à verdade. A greve, os métodos e fóruns democráticos do movimento são comparados aos crimes da ditadura e à atmosfera de repressão da época! Mas a Folha de S. Paulo parece esquecer-se da participação cúmplice da Universidade de São Paulo, enquanto instituição, no regime da ditadura militar – nunca aceitou a instauração de uma Comissão da Verdade para que se fizesse justiça aos estudantes, professores e funcionários mortos e esquecidos. Mais do que isso, a Folha parece esquecer a sua própria trajetória vergonhosa, igualmente cúmplice e publicitária da ditadura militar no Brasil, no estilo Del Nero “a gente só apoiava e financiava a ditadura; não há crime nisso”.

Também é inaceitável que, em nenhum momento, seja citado o principal responsável, o reitor Zago, que tirou férias para não negociar com o movimento, depois, na sexta-feira, 16, colocou a PM para reprimir violentamente com bombas de gás e balas de borracha os estudantes moradores do CRUSP que reivindicam a devolução dos blocos K e L e que cortou o ponto dos funcionários no seu direito de greve. Em contrapartida, o editorial conta com a declaração de Sérgio Adorno (diretor da FFLCH) “O clima é de medo e violência”, o mesmo que cortou o ponto dos funcionários da FFLCH em greve há duas semanas e cujo vice tem posturas abertamente racistas, inclusive constrangendo de forma racista uma integrante do Núcleo de Consciência Negra presente na reunião de negociação com os estudantes da FFLCH, neste primeiro de Julho.

Agora que não é mais possível não falar da greve estudantil da USP, os editorialistas da Folha tentam fazer parecer que “uma minúscula minoria” perturba e intimida os professores, mas a verdade é que muitos professores estão ombro a ombro conosco na luta por uma universidade pública inclusiva e de qualidade e pelas suas próprias condições de trabalho. Hoje, muitos cursos estão com mobilizações ainda fortes, arrancando vitórias dos seus diretores e nas suas congregações (muitas vezes com a ajuda de professores e funcionários) como já é o caso da Enfermagem, Jornalismo, Veterinária, FAU e outras unidades e campi. Na sexta-feira, 24, o movimento negro e estudantil realizaram um importante ato por cotas étnicos-raciais na USP e nos dias 27 e 28 um grande festival “Por que a USP não tem cotas?”. O que significa que seguimos na luta, com a certeza de que anti-democrático, violento e opressor é ter uma reitoria sem voto, uma universidade pública sem preto e pobre e um reitor que não negocia.

O editorial não diz, mas a nossa luta é em defesa do Hospital Universitário, hoje sucateado e ameaçado de ser desvinculado; por contratações de professores, porque vivemos uma realidade em que matérias estão sendo fechadas por falta de docentes e em que funcionários estão adoecendo por sobrecarga de trabalho; e é pela democratização do acesso à universidade e por reparação histórica: Por cotas e permanência. A greve de 2016 é atravessada pela continuidade da luta por democracia, em que os lutadores do período da ditadura viveram o seu momento mais agudo. Esse é o lado da história que o movimento estudantil da USP fez parte e reivindica.

O Prof. Silvio de Almeida, da Faculdade de Direito, tem toda a razão: Este é um ano diferente, porque é uma das primeiras vezes em que nós debates as cotas raciais não como uma questão moral, mas como uma questão política e emergencial. Zago não quer que tenhamos uma vitória concreta e “oficial” porque, não podendo lidar com os conflitos, ele trabalha para desmoralizar o movimento. Mas imaginem o tamanho do transtorno e do vexame que é ser a gestão que, contra o movimento democrático da história, se recusou a aderir às formas alternativas de ingresso efetivas. Nós já ganhos em certo sentido, mas queremos ganhar mais e melhor.

Já sabemos que a Folha de S. Paulo tem um lado que não é o nosso, o elemento novo é que estão lançando mão da mentira e da tolice. Os nossos adversários estão desesperados.

 

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