Da exceção à regra – Nota sobre a invasão do NCN pela Polícia Militar

04 de julho de 2015, 07:53

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Na noite de quinta feira (2) as aulas do cursinho popular do Núcleo de Consciência Negra (NCN) foram interrompidas com a invasão de numerosos policiais fortemente armados que perseguiam dois jovens negros moradores da São Remo, comunidade vizinha à USP. A ação totalmente desmedida assustou a todos que estavam no prédio e expressa um total desrespeito com a instituição histórica de resistência negra dentro de uma universidade onde os negros sempre foram minoria no quadro de alunos e professores.

Os jovens tinham 15 e 17 anos e foram revistados, acusados de participarem de um assalto a mão armada dentro da universidade. Durante a revista não foi encontrada nenhuma arma de fogo na posse dos menores. Ainda assim, os dois foram levados à delegacia depois de um policial afirmar ter encontrado, num terreno próximo ao Núcleo de Consciência Negra, a arma que carregavam os jovens. Uma advogada, ativistas do NCN, do DCE e SINTUSP compareceram à delegacia para acompanhar o caso junto à família dos jovens detidos, que posteriormente foram levados à fundação casa.

O que aconteceu na noite de ontem é um retrato da relação da Universidade de São Paulo com a juventude negra e periférica que se depara com a desigualdade social e a opressão policial dentro de suas comunidades. Apesar da USP receber dos cofres do governo, a partir de impostos arrecadados de todo o povo paulistano, cerca de 360 milhões por mês, dentro de seu quadro de alunos quase 50% pertencem aos 20% mais ricos da sociedade. Infelizmente, a relação da universidade com sua vizinha, a comunidade São Remo, se restringiu nos últimos anos à ameaças de despejo por parte da reitoria e com a aquisição de mão de obra barata e terceirizada para seus postos de serviço.

O posicionamento do DCE da USP não poderia ignorar a luta por cotas raciais que os estudantes e movimentos sociais vem travando dentro da universidade. O movimento negro, em conjunto com o restante do movimento social da universidade luta para que a maior Universidade Pública do país reserve vagas para estudantes negros em seu quadro discente. A luta tem como objetivo colocar esses mesmos jovens negros da periferia dentro da universidade e reservar-lhes um outro futuro que não a morte e prisão nas mãos da polícia militar e que, desde já, consigamos pensar uma universidade que tenha sua produção científica, acadêmica a serviço dos trabalhadores e do povo negro e periférico.

O contexto da USP e este caso específico se relacionam diretamente ao contexto mais geral do país. Nessa semana vimos duros ataques racistas à juventude negra, como a emblemática aprovação do projeto de redução da maioridade penal. Diferente do que alardeiam os meios de comunicação, os crimes contra a vida cometidos por jovens menores de 18 anos representam menos de 1% do total de crimes. Por outro lado o encarceramento e a morte de jovens só cresceu nos últimos anos. Só entre 2006 e 2012 mais de 33 mil adolescentes entre 12 e 16 anos foram assassinados no país. Mas a maior taxa de mortalidade ainda segue sendo a dos jovens entre 18 e 19 anos, idade em que saem da proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente, sendo que, no último período o número de morte de jovens negros aumentou cerca de 14,1%.

Se os crimes contra a vida cometidos por menores são a exceção, o que vimos ontem na USP foi a regra. A Polícia Militar agindo com truculência, arbitrariedade e autoritarismo. Ao entrar armada em uma sala de aula do NCN, atrás de dois menores de idade, prova que segurança e Polícia tem sentidos antagônicos em nossa sociedade.
Os jovens presos na noite de ontem representam, se os planos dos ricos, grandes empresários e do Congresso nacional derem certo, o futuro de grande parte da juventude negra no Brasil, que tem seus direitos básicos à saúde e educação negados e por outro lado são encarcerados em prisões sem as minímas condições de vida. Esses jovens são jogados em verdadeiras escolas do crime. Em um país com a 4ª população carcerária do mundo não é possível chegar à conclusão que a a redução da maioridade penal seja a solução para a violência.

A Justiça, a polícia e a universidade racistas não podem continuar negando o direito ao futuro da juventude negra! Repudiamos em absoluto a ação da polícia militar, a a falta de políticas de inclusão e relação com a sociedade por parte da USP e o governo do estado de São Paulo, responsavel pela PM!

Nós defendemos que na USP, a exceção vire regra! Que os poucos estudantes negros passem a ser maioria, que a juventude negra passe a ter direito ao futuro!

‪#‎Reduçãonãoéasolução‬
‪#‎Cotasjá‬
‪#‎ForaPM‬

 

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