Em último CO do ano, Zago acoberta denúncias de violência na FMUSP e ainda ataca mulheres Representantes Discentes

10 de dezembro de 2014, 18:31

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O último Conselho Universitário de 2014 (realizado em 09/12) teve como pauta de discussão principal o orçamento da USP para 2015. Mais uma vez, a reitoria cortará em cerca de 30% o orçamento da USP, prejudicando atividades de ensino, pesquisa e extensão. Sem assumir a necessária postura de pleitear um aumento do repasse de verbas estaduais para a universidade (com a reivindicação de 11,6% do ICMS), o reitor segue culpabilizando funcionários, professores e a folha salarial, pela atual situação financeira da USP, o que é absurdo frente à irresponsabilidade, à falta de democracia e transparência da própria burocracia universitária na gestão da universidade.

Entretanto, o que mais chamou atenção no CO não foi a discussão orçamentária, mas sim o tema das violações de diretos humanos, da violência a mulheres, negras, negros e LGBTs, em espaços da USP.

São de conhecimento público as gravíssimas denúncias relativas à Faculdade de Medicina, envolvendo casos de violência e opressão, com a anuência da diretoria da Faculdade. Diretoria esta que, não apenas não apura as graves denúncias que vêm à tona, como ainda estimula, direta ou indiretamente, a realização de eventos em que os casos de machismo, LGBTfobia, racismo e opressão são a regra.

Espanta o fato de uma instituição como a USP simplesmente não tomar nenhuma medida para a efetiva promoção dos direitos humanos e para a punição de agressores. Frente à omissão sistemática não apenas da diretoria da FM/USP, mas também da reitoria, recentemente a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) realizou três audiências públicas sobre o tema, fazendo com que mais denúncias surgissem e o tema ganhasse repercussão no conjunto da sociedade.

Somente após tudo isso, o atual reitor da USP, Marco Antonio Zago, pronunciou-se. E, para o espanto de nós, mulheres representantes discentes do CO da USP, da pior maneira possível. No CO de 09/12, ao falar sobre o assunto, Zago preferiu voltar suas críticas àqueles e àqueles que tem denunciado os casos de agressão na USP, e não aos agressores. Segundo nosso reitor (cabe notar: um homem, branco e professor na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto), os que pedem a punição dos agressores na USP são, na verdade, “inquisidores”, “purificadores” e adeptos a “autos de fé”.

Evidentemente, nós, RDs, não ouvimos caladas tais declarações. Não é admissível que a mais alta figura hierárquica da universidade, o reitor, reproduza uma das principais lógicas da perpetuação do machismo e do preconceito, a saber, a culpabilização das vítimas e não dos opressores. Sobretudo, não podemos admitir que a postura da reitoria frente ao que acontece na FM/USP (e, certamente, em muitas outras faculdades, com anuência de muitos outros diretores, como denúncias futuras poderão demonstrar) seja de acobertamento e omissão. Tal postura, em essência, legitima institucionalmente que práticas de transgressão dos direitos humanos, como o machismo, racismo e a LGBTfobia, se perpetuem na USP.

No CO, declaramos que era absurdo o assunto ser tratado do modo como foi por Zago, colocando “panos quentes” sobre as denúncias em nome de uma suposta preservação da “imagem” da USP. Falamos sobre as inúmeras propostas de combate às opressões elaboradas em espaços do movimento estudantil, que há tempos se debruça sobre o tema, exigindo que a reitoria tomasse medidas urgentes, por exemplo uma campanha contra a violência à mulher, um centro de referência para dar orientações jurídicas, médicas e psicológica. Deixamos claro que não admitiríamos nenhum tipo de omissão por parte da USP.

Entretanto, o que já estava ruim, piorou. Frente aos nossos questionamentos, teve início uma série de agressões morais, protagonizadas pelo reitor Zago e por diversos diretores, contra aquelas (nós) que ousavam criticá-los.

Inicialmente, uma primeira representante foi interrompida diversas vezes pelo reitor. Zago tentava a todo tempo desmoralizá-la, alterando o tom de voz e se utilizando de sua posição de autoridade, não permitindo que o raciocínio da RD fosse concluído. Junto a isso, outros diretores seguiram, em pronunciamentos e informalmente, debochando das RDs, fazendo abertamente piadas e provocações acerca das denúncias colocadas, e um deles, inclusive, filmando de maneira constrangedora, com um aparelho celular, as representantes discentes.

A tentativa de chacota e de desmoralização dentro do principal conselho da USP não parou por aí. O ápice da situação foi, a nosso ver, um caso de grave agressão moral protagonizado diretamente por Zago. Após o pronunciamento de uma das RDs sobre o tema orçamentário, Zago simplesmente não reconheceu a legitimidade dos argumentos apresentados e, de modo arbitrário e autoritário, diante de todo conselho, ordenou que a mesma voltasse ao microfone e se retratasse, posto que o reitor discordava de seus argumentos. Ao tomar a palavra, a RD imediatamente foi interrompida pelo reitor, que gritava repetidas vezes, em altíssimo tom de voz: “você é incapaz de me responder”, “você é incapaz de me responder”, não permitindo que a RD sequer iniciasse sua fala, configurando uma inadmissível tentativa de desestabilizar a estudante e enfraquecer seus argumentos e colocações políticas.

Consideramos que tais episódios, mais uma vez, deixam claro como o machismo e o assédio na universidade têm respaldo institucional, sendo reproduzidos e banalizados até mesmo na instancia máxima da universidade, o CO, e pelo próprio reitor.

Nós, enquanto mulheres e RDs, escrevemos essa nota para publicizar os ocorridos e denunciar a naturalização do machismo dentro dos órgãos de deliberação da USP. O recado de Zago e da maioria dos conselheiros do CO foi de que, não apenas as denúncias relativas à FM/USP serão novamente acobertadas, como ainda muitos dos próprios dirigentes da universidade são os primeiros a reproduzir os preconceitos e práticas opressoras que devemos condenar. Ressaltamos que a composição do conselho é antidemocrática, e que dos mais de 100 membros, apenas 10 são estudantes de graduação, 3 da pós-graduação e 3 são representantes dos funcionários. As duas maiores categorias da universidade são as menos representadas no CO. Queríamos nessa nota, agradecer a grande solidariedade que recebemos dos representantes dos funcionários, os quais inclusive falaram em nossa defesa, e dos estudantes da pós-graduação.

Não admitiremos isso. É lamentável a indisposição do CO da USP e do reitor Zago em investigar e punir os culpados pelos casos de violência. Enquanto RDs, dispomo-nos a levar até as últimas consequências o tema em questão, exigindo a responsabilização dos violentadores, estimulando que cada vez mais estudantes, de diferentes faculdades da USP, denunciem os casos de agressão que acontecem com a anuência de suas diretorias. Não aceitaremos a omissão da reitoria sobre todos estes casos.

Acreditamos que nesse momento o movimento estudantil deva se unir para pressionar a reitoria e cada diretoria de unidade para que haja reconhecimento institucional e que políticas sejam criadas para combater a violência contra os direitos humanos. E pedimos a toda comunidade universitária e a toda sociedade que fortaleçam essa luta e o movimento de denúncia dos casos de assédio e violência, para conquistarmos uma universidade livre de opressões.

 

Representantes Discentes mulheres da graduação: Gabriela Ferro, Marcela Carbone, Naiara Schranck e Vanessa Couto.

 

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