Resposta às declarações de Rodas em 14/11

16 de novembro de 2013, 00:42

Compartilhe:

Na quinta-feira (14/11), o reitor da USP, João Grandino Rodas, deu declarações públicas criminalizando o movimento estudantil e sindical da universidade. Em resposta à ocupação da reitoria, que teve início em 01/10 e foi encerrada pela Tropa de Choque da Polícia Militar em 12/11, o reitor estima, de modo unilateral, em “muito mais do que 1 milhão de reais” os prejuízos causados no prédio. Rodas insinua, também, a intenção de perseguir politicamente não somente o DCE, mas também ADUSP e SINTUSP, chegando ao absurdo de classificar de “covardes” estas entidades.

Inicialmente, é preciso questionar: quem promove as investigações e com base em quais critérios?

O prédio da reitoria da USP, desastradamente, foi desocupado com o uso da violência policial, em megaoperação de reintegração de posse comandada pelo reitor da USP. Diferentemente da ampla maioria das universidades do país, na USP a reitoria é incapaz de lidar com movimentos políticos por meio do diálogo e estabelecer processos de negociação reais. Em 2013, Rodas foi derrotado por duas vezes na Justiça e, constrangido, foi obrigado a abrir um processo de negociação interno. Em uma das decisões, o juiz enfatizou que o movimento político era legítimo e que nenhum possível dano patrimonial poderia justificar uma ação unilateral da reitoria. Entretanto, mesmo em meio às negociações, de maneira absurda, Rodas insistiu na via judicial e obteve liminar para utilização da Polícia.

Esta prática não pode ser naturalizada na universidade. No espaço universitário, deve prezar a negociação, o diálogo e a saída política para os conflitos. Em absoluto, não foi isso o que fez Rodas. O reitor se utilizou da via judicial para desestabilizar um processo de negociação interno que estava em curso, promoveu um golpe no movimento estudantil e ainda o reprimiu. Outras medidas, ainda, como o corte de água e luz no prédio da reitoria há mais de um mês, corroboraram com isso. O responsável pelo acirramento do conflito político é o próprio reitor ao se negar a encerrar o processo de negociação com os estudantes e ao lidar de maneira truculenta com o movimento. Rodas optou por estimular mais ainda a indignação estudantil. De maneira antipedagógica, agiu de maneira oposta ao que se deve adotar em uma universidade: escolheu a ideia da força no lugar da força das ideias.

Enquanto a comunidade luta por democracia, Rodas insiste em ações violentas. Mais de 50 cursos da USP entraram em mobilização, dois campi (EACH e São Carlos) realizaram também ocupações locais, e a resposta de uma reitoria amplamente questionada — que sofre processo no Ministério Público, que é persona non grata na FD — é simplesmente a criminalização, e não o atendimento de pautas legítimas como as eleições diretas para reitor.

Cabe questionar, também, quem tem ou não responsabilidade no uso do dinheiro público da USP. Os estudantes, engajados na construção de uma universidade pública, democrática e aberta à população, são os primeiros a reivindicar a mais ampla transparência na gerência dos recursos da universidade.

Entretanto, não é isso o que se vê na USP com Rodas. Nos últimos anos, nosso reitor ganhou notoriedade ao promover gastos exorbitantes e arbitrários de dinheiro público, sem transparência. Em 2011, por exemplo, Rodas anunciou gastos no campus Butantã no valor de R$ 240 milhões, em obras como a construção de um “Centro de Convenções Internacional” ou mesmo reformas na reitoria. No mesmo período, Rodas foi interpelado pelo Ministério Público pela compra de “imóveis” em áreas externas à USP. Sem consultar nem mesmo o Conselho Universitário, o reitor gastou, por exemplo, R$ 3,6 milhões em um imóvel na Avenida Paulista, R$ 7,4 milhões em um imóvel naConsolação e mais de R$ 10 milhões em unidades de estacionamento em Santo Amaro. Rodas não possui nenhuma autoridade para falar em nome da USP e da população de São Paulo, pois sobretudo ele, como gestor, é irresponsável no gasto do dinheiro público, ostentando, inclusive, luxos como o famoso caso dos “tapetes persas” em seu gabinete.

O verdadeiro objetivo de Rodas é criminalização. Exemplo maior disso foi a prisão arbitrária de dois estudantes de Filosofia no dia da reintegração de posse, que sequer estavam no prédio da reitoria quando detidos. Igualmente, os capítulos sórdidos pelos quais passaram nossos colegas, sofrendo violência física e psicológica, sendo acusados por crimes estapafúrdios como “formação de quadrilha” e “furto” e ainda tendo sido transferidos ao Centro de Detenção Provisória antes de serem libertos. Rodas busca a todo momento, ainda, responsabilizar ADUSP e SINTUSP pela ocupação da reitoria. Mas, se nenhum professor ou funcionário foi ocupante, por que a reitoria faria isso, senão pelo objetivo de criminalizar o movimento social de conjunto na USP, movimento este que historicamente é um empecilho aos seus projetos? Trata-se de uma sucessão de absurdos, com a qual Rodas se insere na dinâmica da maior parte dos governos e polícias do Brasil, que hoje buscam sufocar as manifestações de rua do país para que novos junhos não aconteçam.

Isso posto, mais uma vez o DCE da USP esclarece, publicamente, embasado nas deliberações dos fóruns do movimento estudantil, ser contrário a qualquer tipo de danificação do patrimônio público da universidade. Nossas ações são sempre políticas, democráticas e visam ao diálogo. No movimento estudantil, nos diferenciamos daqueles que trabalham com a primazia da ação individual em um movimento que é coletivo. Por isso, não admitiremos a impetração de supostos crimes aos estudantes, a partir de acusações unilaterais da reitoria e da PM.

No processo de negociação, o DCE propôs uma comissão de averiguação de possíveis danos que incluía representantes da reitoria, professores, funcionários e estudantes. Ao romper as negociações, a reitoria se preparou para acusar unilateralmente o movimento, sem este ter condições questionar a veracidade das acusações. Nem nós nem a sociedade sequer sabemos os possíveis danos causados pela própria Polícia Militar durante a reintegração de posse, como tem sido prática recorrente.

Chamamos a que a sociedade nos ajude a compor uma ampla frente democrática em repúdio às prisões, aos processos e à perseguição política. Não iremos admitir qualquer tipo de criminalização que vise desmoralizar um movimento que luta por democracia.

Lutar por democracia não é crime!

 

One Response to Resposta às declarações de Rodas em 14/11

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *