Congregação do IRI impede manifestação de estudantes por democracia

20 de setembro de 2013, 23:24

Compartilhe:

Hoje foi um dia revoltante para os alunos de Relações Internacionais. A Congregação se reuniu para discutir as mudanças no sistema de escolha para reitor e diretores de curso e levar uma posição para o Conselho Universitário do dia 1º de outubro. A reunião, ligada completamente à questão da democracia – ou falta dela –, só refletiu a forma arcaica como as decisões são tomadas na USP. Para além do fato de que a proposta da diretoria não representa, efetivamente, o menor avanço no sentido da ampliação da participação de alunos, funcionários e professores, a forma como essa reunião aconteceu mostrou que não há interesse algum da burocracia universitária em, de fato, democratizar a universidade.

Os alunos foram impedidos de participar da Congregação, que aconteceu de portas fechadas e ainda foram expulsos do prédio sob ameaça de cancelamento da reunião! É sintomático e no mínimo contraditório que a discussão sobre democracia seja feita pela “nata” da comunidade universitária entre quatro paredes e a presença daqueles que mais discutem e sentem os reflexos da falta dela seja rejeitada.

Segue abaixo a nota redigida pelo Centro Acadêmico Guimarães Rosa sobre o ocorrido:

“Isto não é uma pauta importante” – Nota de repúdio aos ocorridos na reunião da Congregação do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo do dia 20 de setembro de 2013

“Isto não é uma pauta importante”, respondeu um professor da FEA ao encontrar cerca de 30 estudantes de Relações Internacionais em um dos corredores do FEA 3, ao lado da sala onde ocorria a reunião da Congregação do Instituto. A principal pauta da reunião era Democracia na USP e a posição do Instituto na reunião do Conselho Universitário a ser realizada no 1º de outubro próximo.

Os estudantes de Relações Internacionais deliberaram, em Reunião Geral do Centro Acadêmico, pela tentativa de ocupar a sala onde a reunião aconteceria, como forma de manifestar sua posição acerca da pauta a ser discutida – que diz respeito justamente à atual sub-representação de estudantes e funcionários na estrutura de poder da universidade, inclusive na Congregação do IRI.

A intervenção possível se deu no início da reunião, com muitos estudantes com cartazes fazendo uma fala acerca da atual estrutura de poder na universidade e apresentando nossas propostas de mudança. Não tendo sido permitida nossa permanência na sala, posicionamo-nos no corredor, de forma que nossa presença ainda pudesse ser notada e que nossos cartazes estivessem visíveis para os presentes na reunião. Destaca-se que não estávamos inviabilizando a passagem nem as atividades regulares da faculdade. Ainda assim, o professor da FEA nos abordou e, além de fazer pouco caso da nossa manifestação, entrou na sala onde a reunião acontecia afirmando que, caso os estudantes não saíssem de lá, a reunião teria de ser interrompida. Visando a continuidade tanto da reunião como de nosso ato, propusemos à Congregação que pudéssemos sair do corredor e entrar na sala, mesmo sem direito à fala; ou que a reunião fosse transferida para outro espaço, como a sala de aula do IRI, fora de uso naquele horário. No entanto, a diretoria nos ameaçou dizendo que, caso não desocupássemos o corredor, a reunião seria cancelada e as pautas decididas via e-mail. Portanto, descemos e nos colocamos em frente ao prédio até o fim da reunião. Os cartazes (que, aparentemente, também estavam inviabilizando as atividades no edifício) foram retirados pelos funcionários da FEA.

A não abertura da Congregação, especialmente em reunião que estava discutindo Democracia na USP, e o impedimento da nossa presença em um corredor, apenas comprovam a existência de uma estrutura de poder autoritária e retrógrada na Universidade de São Paulo. Mesmo reconhecendo que, em última análise, tínhamos um único voto por meio da Representação Discente no Colegiado, não tivemos permissão para acompanhar a discussão dentro da sala. O impedimento físico da manifestação dos estudantes e a expulsão destes de um prédio público atestam um profundo desrespeito pelos nossos posicionamentos políticos. Por mais que aqueles que exigiram nossa saída fossem da FEA, nossa Congregação compartilhou desse entendimento ao se recusar a continuar enquanto não saíssemos, mesmo dadas as alternativas.

Lembramos que essa não foi a primeira vez em que o Instituto se mostrou fechado ao diálogo. Em reunião com a gestão do Centro Acadêmico, a diretoria enfatizou que não era de interesse do Instituto realizar um debate prévio sobre o tema da democracia na USP – que seria, portanto, restrito à Congregação. Ainda assim, foi realizado, pelo GUIMA e pelo CAVC, um evento para discutir as propostas de mudança no processo de eleição para reitor, o qual não contou com a presença de nenhum professor do IRI nem da FEA, a despeito do convite a eles endereçado. Ressaltamos a falta de coerência no discurso do Instituto que, ao responder ao pedido dos estudantes sobre a abertura da reunião da Congregação, afirmou o seguinte: “A direção do IRI coloca-se à disposição para assegurar viabilidade a qualquer proposta de discussão aberta sobre o tema das eleições para a reitoria da USP, de iniciativa de seus docentes, estudantes e funcionários”. Ficou claro o desinteresse da diretoria em realizar uma discussão junto à comunidade discente, tendo em vista que o e-mail data da antevéspera da reunião da Congregação, não havendo tempo hábil para um diálogo concreto.

Dessa forma, o Centro Acadêmico Guimarães Rosa de Relações Internacionais da USP manifesta seu repúdio à postura da diretoria e da Congregação do Instituto por se mostrarem fechadas ao debate com os estudantes sobre uma pauta que diz respeito justamente à voz que temos na atual estrutura de poder da USP. A recusa de um debate prévio, os lamentáveis acontecimentos desta manhã, as suas atitudes na expulsão dos estudantes e a frase emblemática do professor da FEA que dá título a esta nota não são mera coincidência. Refletem, antes de mais nada, como a questão da democracia (não) é tratada em quase toda a USP. O que existe, de fato, são manobras para não discutí-la substancialmente. Como fazê-lo sem a devida representação das categorias que compõem a comunidade universitária? As cenas que presenciamos hoje apenas exemplificam o processo de tomada de decisão dentro do IRI – esteja em pauta algo cotidiano como a validação de créditos de intercâmbio ou pautas maiores como a desta congregação.

Aguardamos todxs na Reunião Geral da próxima segunda.feira (23/09) para melhor discutir o assunto, esclarecer os detalhes do ocorrido e continuar organizando nossas próximas mobilizações em torno da pauta. Reconhecemos também a disposição e o compromisso de todxs aqueles que estiveram presentes nos ocorridos de hoje, exigindo que a voz coletiva dos estudantes do curso fosse ouvida. Consideramos que a pauta da democratização da estrutura de poder da USP é fundamental quando defendemos a Universidade, deveras, Pública.

Por fim, reiteramos o posicionamento da comunidade discente descrito a seguir, tirado na Reunião Geral do dia 16 de setembro, defendido pelos Representantes Discentes na Congregação e abaixo-assinado por mais de 100 estudantes:

– Fim da lista tríplice na escolha do reitor;
– Composição paritária entre os três setores da comunidade universitária (estudantes, professores e funcionários) nos colegiados da Universidade (Congregações e demais colegiados de Unidades, Conselhos Centrais e Conselho Universitário);
– Elegibilidade de qualquer docente para diretoria de Instituto e reitorado, independentemente de título na hierarquia acadêmica;
– Eleições diretas e paritárias para reitor(a);
– Política de ações afirmativas efetiva que garanta a democratização do acesso e permanência na USP.

Centro Acadêmico Guimarães Rosa de Relações Internacionais da USP
20 de setembro de 2013

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *